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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

OMS: dois terços da população mundial se alimentam mal

Publicado por Correio do Brasil em 10/11/2015 

No mundo há 2 bilhões de pessoas subnutridas e quase o mesmo número de obesos. Consequência da pobreza e de um estilo de vida pouco saudável, ambos os problemas alimentares pesam sobre sistemas de saúde.

Malri, um menino tanzanês de cinco anos, sofre de obesidade. Para a mãe, Fadhila isso não é problema. “Todos nós somos um pouco gordinhos. Isso é de família”, diz ela, que também está acima do peso.

A família vive numa área rural pobre, no distrito de Kilimanjaro. Malri se alimenta principalmente de gordura e carboidratos, verduras e frutas são muito caras para o orçamento familiar, conta a mãe. O menino de cinco anos tem um Índice de Massa Corporal (IMC) superior a 30 e, portanto, pertence ao grupo de risco crescente de pessoas acima do peso e obesas em todo o mundo.

A definição de sobrepeso se aplica a indivíduos com um IMC acima de 25. A partir do IMC 30, a pessoa é considerada obesa. Adotado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o IMC é determinado pela divisão do peso do indivíduo por sua altura ao quadrado.

Anualmente, a OMS estima que 2,5 milhões de pessoas morram vítimas dos efeitos da obesidade. Com uma dieta altamente calórica e pobre em nutrientes, o risco de pessoas com sobrepeso contraírem diabetes e doenças cardiovasculares, como também diversos tipos de câncer, é muito maior do que em pessoas de peso normal. A OMS acredita que, atualmente, sobrepeso e obesidade provoquem mais mortes que a fome.

Fardo duplo: fome e obesidade

A Tanzânia, terra natal de Malri, está entre o grupo de países com um problema nutricional duplo. Devido ao grande número de pessoas subnutridas, o Índice Global da Fome de 2015 classifica a situação na nação africana como um “problema sério”. Ao mesmo tempo, aumenta o número de pessoas no país com a chamada obesidade mórbida.

Nos últimos anos, economias emergentes, como a China e o México, conseguiram reduzir com sucesso a fome, mas registraram, ao mesmo tempo, um aumento do número de pessoas acima do peso. Isso não é incomum em países onde os hábitos alimentares caminham cada vez mais em direção ao consumo de alimentos processados e altamente calóricos, como os oferecidos mundialmente por grandes companhias multinacionais, explica Roman Herre, especialista em agricultura da organização de direitos humanos Fian.

Herre menciona as Filipinas como exemplo: “Macarrão instantâneo é comprado geralmente por pessoas mais pobres, porque ainda é um produto um pouco mais barato que o arroz nacional. A única pergunta é quantos nutrientes contém o macarrão instantâneo e quantos estão contidos no arroz cultivado localmente.”

Boa nutrição é direito humano

Além da luta contra a fome, uma melhor nutrição e a agricultura sustentável também pertencem aos novos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas. Por esse motivo, para a ONG Fian, que trabalha em prol do direito humano à nutrição, está mais do que na hora de que não somente o fenômeno da fome, mas também a qualidade dos alimentos faça parte da agenda internacional.

– Especialmente quando se observa o tema da nutrição do ponto de vista dos direitos humanos e se questiona do que realmente consiste o direito humano à alimentação, então, o que está em jogo é também o fato de as pessoas terem o direito de se alimentar de forma qualitativamente adequada – diz Herre.

Uma comparação entre o infográfico do Índice Global da Fome de 2015 e o da obesidade deixa claro que a nutrição inadequada é um problema global. O Índice Global da Fome mostra a situação atual nos países emergentes e em desenvolvimento por meio de cores, enquanto os países industrializados permanecem em branco, já que lá a fome não é problema. Por outro lado, é justamente nesses países que o número de pessoas com obesidade mórbida é particularmente elevado. Por esse motivo, no mapa da OMS sobre a obesidade, o território desses países é apresentado em vermelho ou laranja-escuro.

De acordo com a OMS, um terço da população dos EUA, por exemplo, está extremamente acima do peso. Na Europa, dependendo do país, essa proporção é de um quinto ou um quarto.

Mesmo em países industrializados, a má alimentação em forma de sobrepeso é, principalmente, um problema da pobreza e do nível educacional. Enquanto na Ásia, por exemplo, o macarrão instantâneo pobre em nutrientes é o que contribui para a má nutrição, em países industrializados, cidadãos mais pobres comem cada vez mais produtos prontos com alto teor de gordura, açúcar e sal, como, por exemplo, hambúrgueres, batatas fritas, cachorros-quentes, sopas instantâneas, torradas e pizzas congeladas. O resultado: muitos obesos também sofrem de subnutrição, já que ingerem poucos nutrientes.

Nutrição na infância

A pouca quantidade de nutrientes também é um problema na chamada “fome oculta” ou “fome silenciosa”, que afeta mundialmente cerca de 2 bilhões de pessoas, diz Andrea Sonntag, responsável por política de nutrição na organização Ação Agrária Alemã (Welthungerhilfe, em alemão).

– Eu me sinto satisfeita, nem chego a notar que estou com fome, que tenho uma deficiência de nutrientes essenciais – descreve Sonntag os efeitos de uma alimentação direcionada somente à ingestão de calorias. As consequências são devastadoras, especialmente para as crianças, pois a falta de nutrientes na infância tem implicações por toda a vida.

– O corpo fica muito mais propenso a doenças e não se desenvolve da mesma forma que num indivíduo saudável. Isso não pode ser recuperado posteriormente, quando as crianças se tornam adultas – explica.

Problema alimentar mundial

Os números falam por si: 2 bilhões de pessoas estão subnutridas mundo afora, e há quase o mesmo número de obesos. Isso significa que, hoje, quase dois terços da população mundial se alimentam mal – com consequências negativas não somente para a saúde dos indivíduos, mas também para os sistemas de saúde nacionais e para a economia.

A Sociedade Alemã de Combate à Obesidade (Deutsche Adipositas-Gesellschaft) estima, por exemplo, que os problemas de sobrepeso irão custar ao sistema de saúde do país mais de 25 bilhões de euros (por volta de R$ 100 bilhões) por ano até 2020. Especialistas falam de uma “epidemia de obesidade”, já que mais da metade dos alemães está acima do peso ou obesa.

A razão principal: um estilo de vida pouco saudável, com pouco exercício e muitas calorias. Tanto em países pobres quanto nos ricos, esse é um problema crescente. Enquanto aumenta a proporção de pessoas desnutridas e obesas, aumenta o desafio para os sistemas de saúde globais.

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