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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Uma opinião Científica sobre Agrotóxicos

Por Egídio Serpa publicado em 30/10/2015 no Diário do Nordeste

Leiam o artigo abaixo, de autoria do engenheiro agrônomo e pesquisador Alfredo José Barreto Luiz, dos quadros da Embrapa Meio Ambiente:

“É cada vez mais frequente encontrarmos textos satanizando os agrotóxicos, principalmente nas redes sociais. Todos procuram dar uma certa aparência de “verdade científica” aos argumentos, mas, na realidade, estão quase sempre cheios de erros, preconceitos ou conceitos equivocados. 

Se bem recomendados e aplicados, os agrotóxicos são para as plantas muito semelhantes ao que os medicamentos são para os humanos. Embora possam ter efeitos colaterais, são pensados para curar os vegetais cultivados e não para causar efeitos colaterais. 

O Brasil é grande usuário de agrotóxicos (que em outros países são chamados de pesticidas, pois se destinam a matar as pestes e não a serem tóxicos para o ‘agro’) por causa do clima tropical e da grande área plantada. Nos países de clima frio, durante o inverno há um controle natural das pragas, doenças e plantas invasoras que prejudicam a produção agrícola. Isso não ocorre no nosso clima tropical. 

A afirmação de que nós brasileiros, consumidores de produtos agrícolas, ingerimos cinco litros de agrotóxicos por ano, é totalmente falsa. Esse é o volume total de agrotóxicos aplicado sobre toda a área cultivada brasileira ao longo do ano, simplesmente dividido pela população. Nesse cálculo entram todos os produtos aplicados na cana­de­açúcar destinada à produção de álcool, por exemplo, produto que não é ingerido por nós, humanos. E a cana é a segunda cultura em área no Brasil. 

Também entram todos os agrotóxicos aplicados na soja exportada, que não é ingerida por nós, portanto. E tudo que é aplicado nas seringueiras, cultivadas para produção de látex, e nos eucaliptos e pinus destinados à produção de celulose e papel, nas demais essências florestais etc. Mais importante que isso é que os agrotóxicos trazem no rótulo uma informação sobre o prazo de carência; o que é isso? É o prazo que deve ser respeitado entre a última aplicação do produto e a data da colheita (especialmente importante no caso de produtos alimentícios).

Esse prazo é calculado para que as substâncias químicas ativas dos agrotóxicos já tenham se transformado em outras (pela ação da temperatura, luz, umidade etc.), restando em quantidade tão reduzida e diluída que não oferece mais perigo. Se essa instrução for seguida, nenhuma quantidade significativa de agrotóxico chegará às mesas dos consumidores. Além disso, da quantidade aplicada sobre uma área, apenas uma pequena fração atinge a parte da planta que vai ser ingerida. Por exemplo, um dos agrotóxicos mais consumidos é um herbicida aplicado na área de soja, a cultura de maior área plantada no Brasil.

Os herbicidas são utilizados para controlar as outras plantas que surgem no meio do plantio da soja e competem com ela por luz, espaço, água e nutrientes, prejudicando o desenvolvimento da cultura e atrapalhando enormemente o manejo da mesma, principalmente a colheita. Pois bem, boa parte dessa quantidade enorme de agrotóxicos é aplicada no período inicial do crescimento da soja, bem distante no tempo da colheita dos grãos. Os herbicidas são usados nos plantios florestais, em cana e, mesmo os aplicados em culturas de produtos comestíveis, seguem o padrão de aplicação na soja, ou seja, a maior parte é aplicada nos estágios iniciais das culturas, longe da época da colheita. 

E, segundo os últimos oficiais dados disponíveis, de 2013, do total de agrotóxicos consumidos no Brasil, os três mais vendidos eram herbicidas, que sozinhos representaram 50,7% do total comercializado no país naquele ano. Muito do que se diz sobre agrotóxicos é mentira e prejudica o debate saudável e necessário sobre o tema. Realmente, existem problemas nessa área e graves. 

O primeiro é o contrabando de produtos. Isso prejudica economicamente o país, além de moralmente todos os envolvidos. Esse comércio ilegal permite a ação de máfias, sempre ligadas a outras formas de crime e corrupção, além de ocorrer à margem de todos os controles, facilitando a existência de produtos falsos, vencidos, não eficientes etc. Outro problema é a não observância das recomendações para aplicação dos produtos. Dentre as inobservâncias, a mais perigosa é para as pessoas que aplicam os produtos (muito mais expostas que os consumidores). 

Os trabalhadores envolvidos na aplicação desses produtos devem usar rigorosamente os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), conforme indicado nos rótulos dos produtos. Infelizmente isso não é cumprido em muitos casos, prejudicando a saúde dos aplicadores, chegando a causar a morte. Outras ‘desobediências’ das normas se dão quanto a quantidade aplicada, o intervalo entre as aplicações, no prazo de carência antes da colheita (principalmente em algumas frutas e hortaliças, cuja colheita se estende pelo tempo, como morango e tomate), na regulagem do equipamento de aplicação, na mistura não recomendada de produtos, na aplicação de produtos não recomendados para a cultura em questão etc. Isso sim deveria ser muito mais discutido pela sociedade. 

É como o caso de medicamentos falsos, contrabandeados, vendidos sem receita, utilizados na quantidade e frequência erradas etc. O problema não está no medicamento, mas no uso que é feito dele. E não se vê uma campanha contra os medicamentos humanos por causa dos problemas no seu uso. Também não são os agrotóxicos os vilões. O problema é o seu mau uso. 

Por fim, da mesma forma que existem problemas com a concentração da produção de medicamentos humanos nas mãos de grandes multinacionais, que devem ser discutidos e enfrentados com leis que facilitem o acesso da população aos medicamentos essenciais, como o Brasil tem feito de maneira exemplar para o mundo (o caso dos remédios para a AIDS é o melhor exemplo), os agrotóxicos têm sua produção concentrada nas mãos de algumas multinacionais e, nesse caso, também deve haver um enfrentamento no interesse da população para baratear os custos da utilização (o preço alto está raiz do contrabando, inclusive).

Mas, condenar o remédio não cura a doença! Devemos esclarecer o assunto, e não confundí-­lo, para realmente enxergar os verdadeiros obstáculos e ultrapassá-­los. Enquanto ficarmos produzindo mais calor e ruído, apenas criando atrito e não resultando em trabalho, estaremos fazendo o que querem aqueles que são contra os interesses da maioria da população e nacionais (afinal somos um grande e eficiente competidor internacional na produção de matéria prima agrícola)”. 


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