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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Crise acionária na China afeta a Bolsa brasileira e valoriza dólar americano

Ernani Fagundes

SulAmérica Investimentos vê preocupação global com a economia chinesa e desaconselha renda variável no momento principalmente em papéis dos setores de mineração, siderurgia e petróleo

A crise acionária chinesa seguirá afetando a Bolsa brasileira e influenciando na desvalorização do real em relação ao dólar. Ontem, a moeda americana à vista subiu 0,93% e fechou a R$ 3,592 no balcão, também impactada pela crise política em Brasília.Na sequência da trágica segunda-feira passada nos mercados globais, a Bolsa de Xangai recuou mais 7,63%, e o índice CSI 300 de companhias chinesas listadas em Xangai e na Bolsa de Shenzen recuaram mais 7,10% ontem.

Aqui, o principal índice de ações da Bolsa de Valores de São Paulo (o Ibovespa) recuperou 0,47% ontem após um anúncio da queda de juros pelo governo chinês, mas o índice ainda acumula perdas de 10,92% no ano, no menor patamar (44.544 pontos) desde a crise mundial de 2009.

Segundo especialistas, o crescimento do produto interno bruto (PIB) brasileiro é afetado diretamente pelo desaquecimento da economia chinesa. É um momento bastante turbulento com forte aversão ao risco na China. Se tivermos uma crise mais séria por lá esse movimento pode contribuir para derrubar a economia global , afirma o economista-chefe da gestora SulAmérica Investimentos, Newton Rosa.

Segundo ele, as perdas aos investidores, principalmente pessoas físicas, nas bolsas chinesas já superam US$ 250 bilhões. Se a situação na China se agravar podemos ter um quadro de fraqueza da economia mundial , ressaltou Rosa sobre os riscos.

Diante desse possível cenário, o vice-presidente de investimentos da SulAmérica, Marcelo Mello, diz que o atual momento macroeconômico é desfavorável para o segmento de renda variável, ou seja, para o investimentos em ações no mercado brasileiro.

Não dá para falar que a bolsa brasileira está barata, mesmo com o preço em dólar da Bovespa bastante depreciado aos olhos do investidor estrangeiro , comparou o executivo.

Mello ponderou que as dúvidas sobre o crescimento chinês levam a um novo ajuste para baixo dos preços das commodities. O valor do minério de ferro já havia recuado mais de 25% no ano, e a cotação do petróleo, mais de 35% de queda em 2015. Não por acaso, os papéis da Petrobras, Vale e siderúrgicas são os que sofrem com o efeito da China.

O câmbio até pode ser um gatilho para a bolsa brasileira, pode ter uma oportunidade mais à frente, não agora. Mas isso tem ficar no radar dos investidores , apontou Mello. Nos últimos 12 meses até ontem, a cotação do dólar avançou cerca de 58%, o equivalente a um processo de maxidesvalorização do real.

Ele explicou que além da questão chinesa há outros riscos na renda variável como a sinalização do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de aumentar os juros nos Estados Unidos que irá tirar liquidez dos mercados de países emergentes, e uma possível perda do conceito de grau de investimento (nota de bom pagador) atribuído ao Brasil.

Já estamos pagando pelo risco especulativo, o estrangeiro só está pedindo mais prêmio , ainda não tem uma saída mais significativa [de recursos]. Mas pode piorar um pouco mais antes de começar a melhorar , afirma.

Ao se considerar todos esses fatores de risco, Mello diz que o cenário atual é benéfico para algumas empresas exportadoras listadas em Bolsa. Subalocado em siderurgia, minério e petróleo, e sobrealocado em serviços financeiros, consumo e papel e celulose , destacou.

Refinanciamento privado

O vice-presidente da SulAmérica também lembrou que as empresas brasileiras que emitem debêntures podem reaquecer o mercado de capitais no horizonte próximo. Há uma necessidade de rolagem de R$ 40 bilhões de dívida corporativa nos próximos doze meses , identificou Mello.

Como expectativas para o segmento de crédito privado, o executivo considerou que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) terá menos recursos do Tesouro para o financiamento empresarial. Isso fomenta emissões de debêntures, principalmente de infraestrutura , aponta.

Mas por outro ângulo, Mello ainda vê risco político e continuidade do desdobramento da Operação Lava-Jato, investigada pela Polícia Federal. Dowgrades [rebaixamento de notas] de construtoras com problemas de alavancagem [endividamento descasado com receitas] podem trazer volatilidade para cotas de fundos de crédito privado. Estamos sendo mais seletivos na análise de crédito. Casos como da Sete Brasil e da OAS [citadas na Lava Jato] fecham janelas , disse.

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