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sexta-feira, 17 de abril de 2015

ARTIGO: Saúde, nutrição e os alimentos do futuro


Maurício Antônio Lopes, presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

Saúde e bem-estar são preocupações crescentes da sociedade. Muitos não medem esforços para garantir que o corpo esteja funcionando bem o tempo todo. As academias de ginástica e os parques públicos recebem número cada vez maior de pessoas preocupadas em manter a forma e o bem-estar físico. No entanto, e infelizmente, a maioria da população mantém estilo de vida pouco saudável. Negligencia o fato de que o corpo humano é constantemente desafiado por uma imensidão de riscos — de vírus e bactérias a doenças crônicas não transmissíveis, como a obesidade, o diabetes, a arteriosclerose e o infarto agudo do miocárdio.

Fato complicador é que a sociedade continua mais afeita ao hábito da cura do que à lógica da prevenção. Embora essenciais, os avanços da medicina resultam em paradigma que não se sustenta. Os custos elevam-se enormemente e poucos podem contar com seguros de saúde adequados. Os sistemas públicos de proteção à saúde enfrentam sucessivas crises financeiras e, não raro, as pessoas precisam desembolsar as economias de uma vida para ter os tratamentos que precisam.
Apesar dessa preocupante situação, não está claro se a prática da prevenção encontrará caminho desimpedido para o centro das políticas de saúde. Na maioria dos países, o orçamento da saúde é dedicado a consultas, internações e remédios para cura das pessoas doentes. Mas, quando pensamos no potencial de redução de custos e de sofrimento, o bom senso, as estatísticas e vários estudos indicam que a prevenção e a promoção da saúde são caminhos mais interessantes e sustentáveis.

Entre os temas importantes relacionados ao bem-estar das pessoas e à prevenção de doenças, o suprimento adequado de alimento seguro e saudável tem grande relevância. Ainda assim, a má nutrição, em todas as formas — subnutrição, deficiências de micronutrientes, excesso de peso e obesidade — têm crescido em todo o mundo. A FAO estima que 26% das crianças são raquíticas, 2 bilhões de pessoas sofrem de uma ou mais deficiências de micronutrientes e 1,4 bilhão tem excesso de peso, dos quais 500 milhões são obesos. O custo estimado do impacto da má nutrição alcança 5% do PIB global, equivalente a US$ 3,5 trilhões por ano, ou US$ 500/pessoa/ano.

Avanços da tecnologia agropecuária e da ciência e tecnologia de alimentos estão entre os principais meios para superação desse preocupante quadro. A estreita relação dos alimentos com a saúde e o bem-estar tem sido tratada em profundidade pela ciência e está bem estabelecida há décadas. Inovações na diversidade, qualidade e funcionalidade dos alimentos poderão proporcionar melhor qualidade de vida para a população, reduzir custos com doenças associadas à má alimentação, e também atender à crescente demanda dos consumidores por alimentos saudáveis, práticos e sensorialmente atraentes.

O Brasil mantém um grande conjunto de ações para o avanço do conhecimento na relação entre alimentos, nutrição e saúde. O objetivo é atender a demandas de consumidores, produtores e indústrias por alimentos mais diversificados, biofortificados, com qualidades nutricionais e funcionais diferenciadas e cientificamente comprovadas. A Embrapa já disponibiliza variedades biofortificadas, com vitaminas e minerais, de batata-doce, mandioca, feijão comum, milho e feijão-caupi, que beneficiam aproximadamente 2.500 famílias nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil. Estão em processo de melhoramento variedades de trigo, abóbora e arroz.

Além de vitaminas e minerais busca-se adicionar e incrementar em diversos alimentos a produção de compostos bioativos, proteínas e peptídeos, fibras alimentares, ácidos graxos e componentes para prevenção de doenças específicas. Resultado promissor foi obtido recentemente com a produção em alface de altas quantidades de vitamina B9, importante na nutrição de gestantes, para prevenção da anencefalia, decorrente de uma malformação no tubo neural. Outros projetos buscam melhorar a abóbora contra o diabetes, o alho para reduzir o colesterol e a melancia, que tem substâncias com potencial de combater a hipertensão arterial.

Hipócrates, o pai da medicina, observou, há 2500 anos, que as doenças originam-se da natureza e podem ser evitadas quando se estabelece equilíbrio entre o meio ambiente, os alimentos ingeridos e o espírito. Portanto, é sempre tempo de refletirmos sobre seu principal ensinamento — “o alimento é o nosso melhor remédio”.

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